Trechos adaptados de um artigo de Henderson Velten.
Mateus 12:40 Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra.
Como pode ser que Jesus ficou três dias e três noites no sepulcro, se ele morreu na sexta à tarde e ressuscitou no primeiro dia da semana? A contagem convencional daria um dia e meio e duas noites.
Coração da terra. Primeiro, vale obesrvar que a expressão “coração da terra” não deve ser interpretada como referência literal ao centro geológico da terra, mas à realidade do sepultamento e da opressão sofrida por Jesus em Sua paixão, numa expressão idiomática derivada do hebraico —como em “coração dos mares” (Jn 2:3; Sl 46:2). Outro exemplo que ilustra essa mentalidade hebraica, é quando Jesus disse: “destruí esse templo”. EGW “Essas palavras encerravam um duplo sentido. Ele não Se referia somente à destruição do templo judaico e do culto, mas a Sua própria morte — a destruição do templo de Seu corpo.” DTN 106.3 No segundo sentido, como que eles iriam derribar o templo? EGW esclarece que “Cristo era o fundamento e a vida do templo […] Condenando Cristo à morte, os judeus destruíram virtualmente seu templo. DTN 107.2 – 107.3 Mesma coisa com respeito à árvore do conhecimento do bem e do mal: “porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Gn 2:17. EGW esclarece: “Naquele dia a irrevogável sentença seria pronunciada” PP 30.5. Adão e Eva não morreram literalmente no mesmo dia, mas foram sentenciados à morte no mesmo dia, e, no entendimento hebraico, morreram nesse dia.
Proposta. Os três dias e três noites abrangem um período iniciado na noite da quinta-feira, por ocasião da ceia, e se estendendo até a manhã do primeiro dia da semana. A contagem, nesse caso, incluiria as três partes diurnas da sexta-feira, sábado, e primeiro dia, e as três partes noturnas correspondentes, considerando a divisão do tempo segundo o calendário judaico, que inicia o dia ao pôr do sol. A sustentação dessa leitura faremos a seguir:
Sustentação. Em primeiro lugar, o próprio Jesus associa Sua paixão ao cordeiro pascal (Mt 26:17-29; 1Co 5:7). A tipologia mosaica previa que o cordeiro fosse imolado na tarde do 14º dia de Nisã. Ora, foi exatamente nesse momento que Jesus celebrou com os discípulos a ceia pascal (DTN 455.1, GC 399.3), na qual Se apresentou como oferta sacrificial, entregando simbolicamente Seu corpo e sangue sob as espécies do pão e do vinho. Tal autodoação, ainda antes da morte física, indica que o Cristo já Se compreendia como sacrificado. Em outras palavras, a obra redentora que culminaria na cruz teve sua formalização cultual e tipológica naquela ceia, razão pela qual se poderia contar a partir dali o início de Sua descida ao “coração da terra”. Jesus já estava virtualmente morto. Todo o período da paixão —não apenas o sepultamento —está implícito na expressão “no coração da terra”, que começaria no aposento superior, com a ceia, e Getsêmani, a entrega de Jesus à Sua missão redentora, datando da traição e entrega pelos judeus. Além disso, os relatos dos evangelhos apontam para um momento de aguda aflição espiritual no Getsêmani, no qualJesus experimenta angústia extrema “até a morte” (Mt 26:38; Mc 14:34). Nessa ocasião, o peso do pecado da humanidade —transferido a Ele de modo misterioso, segundo a lógica da expiação substitutiva (Is 53:4-6; 2Co 5:21) —já O colocava sob o juízo divino. A descida de Jesus à morte, portanto, começou antes da crucificação, ainda no Getsêmani, quando Ele começa a suportar o peso da iniquidade humana como antítipo de Jonas, e a angústia da cruz representa o ponto culminante dessa jornada. A execução de Jesus, nesse sentido, já estava determinada antes de Sua apresentação formal a Pilatos, considerando que a morte já havia sido decretada pelos sacerdotes antes mesmo do amanhecer. Assim, Jesus já foi sentenciado à morte, e como Adão e Eva foram sentenciados à morte no dia em que pecaram, podendo-se dizer que morreram nesse dia.
Conclusão. Os “três dias e três noites” de Mateus 12:40 não se limitam ao período em que o corpo de Jesus esteve no sepulcro, mas abrangem o ciclo completo de sua paixão redentora, iniciada no momento em que se ofereceu como cordeiro sacrificial, continuada sob o peso do pecado no Getsêmani, confirmada por sua condenação e morte, e consumada na vitória da ressurreição.
A propósito: EGW confirma que Jesus morreu no sexto dia da semana: “Parecia que se acumulava aflição sobre aflição. No sexto dia da semana tinham presenciado a morte do Mestre; no primeiro dia da semana seguinte, viram-se privados de Seu corpo, e eram acusados de O haver roubado para enganar o povo. DTN 560.3″